Adeus 21

Essa vida que me pariu há 22 anos me deixou coberta de sangue, quase sem ar, pelada, confusa e assustada nas mãos de um completo estranho na primeira oportunidade que teve. Passei nove meses – 5 deles tão atônita que nem me mexi – dentro do ventre de uma pessoa que, sem que eu fizesse esforço algum, cuidou de mim sem pedir referências ou ler meu currículo. Nove meses me esperando e nem a dei a honra de ser a primeira a me ver. Ingrata desde o princípio.

A vida abriu as pernas para milhares. Deu parte dela a tantos. Irou-se com uns filhos devassos. Deu o mesmo cuidado a filhos puros e bastardos. Nunca aceitou os pródigos. O mal dos que tem muitos filhos é que, se de um lado suprem a sua própria necessidade de serem completos, por outro roubam espaços gigantescos dentro de cada ser. Um vazio sem fim, dentro de um corpo limitado. Paradoxo.

Essa vida, pelas esquinas nas madrugadas, leva a conta a quem passa dos limites. Embriaga de desejo os famintos de realizações pessoais. Fadiga os que tentam acreditar que vale à pena. Será que vale?

Tu, Vida, me embriagaste e me viciastes em ti.

Por que me corrompe a seu bel prazer se sou descartável? Se me tens apenas por uma hora como se fosse uma meretriz a espera do próximo inocente disposto a tudo para ser feliz contigo? Por que, se sabe que meu ar é breve?

Se reclamarem de meu comportamento, a culpa é sua, Vida! Toda sua. Foi você que me pariu. Mandarei, de agora por diante, reclamarem a ti. “-Reclamem à Puta que me pariu!”

Não quero parecer ingrata. É que me entristece apagar velas. Apagar luzes. Sabes que luz representa vida? Estaria eu a apagar um ano de ti em mim? Isso me entristece; não sei expressar tristeza da forma correta. Se você, Vida, fosse um livro dividido em capítulos, iria explicar essa parte apenas no penúltimo capítulo… ainda falta muito – assim espero.

Não sou de me alongar em elogios, nem sou boa em agradecimentos. Deixemos assim, então: “que seja eterno enquanto dure” essa vida, Vida. Que seja boa na medida do possível. Aliás, que SEJA. Apenas seja. Subjetivo? Sim, era a intenção.

Uma música para celebrar (ou seria para pensar?):

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Sobre Colérica

Nasci nos anos 80 - sim, sou maior de idade, mesmo que não pareça! Estudante de jornalismo (típico caso onde se prefere seguir um sonho a buscar dinheiro). Alheia a novelas, filmes cult, comidas extravagantes e palavras difíceis. Sou fascinada pelo Egito, viciada em batata frita, minha cor favorita é o amarelo e meu cabelo me odeia. Eu tinha uma gatinha, mas ela morreu envenenada. O que mais há para se falar de uma garota?Ah, quase ia esquecendo: sou irônica. O que eu espero do mundo? Menos Vogue e mais Dostoiévski, se é que me entende...
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5 respostas para Adeus 21

  1. huuum um texto meio complicado hehehe , gostei do video ^^ . Parabéns pelo blog bem organizado.

  2. sedentario disse:

    Teu texto é excelente, mas vou te confessar que só o li por conta do video de ENGENHEIROS DO HAWAII sou fã incontestavel, A POESIA DENTRO DAS MUSICAS DE HUMBERTO GESSINGUER É INCRIVEL. Às vezes estou como vc contestando a vida o dia inteiro e então passo a escutar centenas de vezes NOVOS HORIZONTES sensacional assim como terras de gigantes. Abraços!

  3. Bill Falcão disse:

    Post perfeito! Parte de um aniversário pra divagar e contestar uma Vida (com V maiúsculo) inteira. Post subjetivo? Sim, mas excepcionalmente bem feito!
    Gostaria que, num dia de inspiração como este, a senhorita fizesse algo parecido pra gente publicar (e divulgar) lá no jornal. Que tal?
    Bjoo!!!

  4. vadetecum disse:

    “Quando nasci, dizem que tiveram um trabalho enorme para me tirar do útero. Também por que sair de um lugar seguro e confortável onde tudo é oferecido de graça?” [Henry Miller – “Trópico de Capricórnio”]

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