O caso “Metrô”

Natural de Londres, pontual, seguro e confortável. Por ele passam todos os dias crianças, idosos, cegos, estagiários, bandidos, jovens bêbados… Conhecido como Subway, Underground, U-Bahn, T-bana, e no Brasil como metrô. Uma mistura da sociedade dividida em vagões. Escolha certa de quem tem pressa. O metrô veio para agilizar a vida das pessoas; torná-la prática. Além de evitar engarrafamentos quilométricos, transporta milhares de pessoas todos os dias. Milhares de vidas. Mas o que essas vidas carregam? Milhares de quê elas pensam e levam nos minutos corridos que passam trancadas ao lado de desconhecidos?

À espera do metrô, andam de um lado para o outro, como se isto fosse uma forma de apressá-lo e de acalmar a si mesmos. Para alguns funciona.

Quando o metrô chega logo se amontoam nas portas para garantir um lugar; marcar seu território antes que outro “predador” o faça. Todos viram caçadores em busca de sua presa: um lugar vazio para sentar, ou um canto para ficar o mais confortável possível. O conforto, às vezes, está no acento preferencial… Acentos preferenciais nem sempre são respeitados. Claro, existem exceções: quando o vagão está lotado e um jovem ocupa um lugar reservado para idosos e deficientes físicos, ele logo dá lugar a uma dessas pessoas, pois se intimida com os olhares discriminatórios ao redor dele. Outro ponto curioso em relação a lugares, é que os mais cobiçados, depois dos bancos, são as portas e em seguida os mastros, que os ciclistas tanto adoram.

Ao entrar no vagão nota-se uma conversa através de olhares, ou melhor, um aviso de “não quero conversar”. As pessoas evitam se olhar nos olhos; nunca se encaram. Apenas observam umas as outras como se ninguém notasse. Quando se encaram, o clima fica tenso. Parece-me que a lei, no que cabe ao direito do indivíduo, é observar. No que cabe à obrigação, é jamais encarar (salvo exceção do flerte). Isso seria um crime constitucional dos transeuntes do metrô. É uma ofensa olhar um desconhecido nos olhos, ainda mais se este estiver atrasado para algum compromisso.

Se pode-se apenas observar (e pouco) as pessoas ao redor, o que eles fazem durante a viagem? Pelo visto uma boa distração é olhar a própria imagem refletida nas janelas, já que olhar para o lado gera desconforto e pode causar conflitos.

Dentro dos vagões é cada um em seu universo particular, que volta e meia é bombardeado com conversas paralelas. Quem conversa acaba contando histórias para a pequena multidão que está ao redor e não apenas para a pessoa com quem a conversa se iniciou. Nota-se que até o volume da voz é alterado e o olhar do interlocutor passeia por rostos desconhecidos, havendo uma espécie de interação subtendida. Por motivo misterioso o interlocutor sempre ganha vantagem na história contada (ele é sempre o mais rico, o mais bonito ou o mais esperto).

Livros, celulares e Ipod’s abreviam o caminho, tanto de quem usa como de quem vê: é algo novo/ diferente, para se observar. Observação é o exercício comum aqui dentro. Provavelmente porque a maioria segue sozinha, todos sérios. Pensam em suas obrigações e planejam como gastar as próximas horas, dias, anos. Escravos de uma rotina que faz seus semblantes ficarem cada dia mais sérios. Outros poucos que vão acompanhados conversam sobre a cidade, o governo, trânsito, trabalho. Vocês podem notar também que, já que falo de objetos, um de muito valor – amado e odiado – é o relógio, porque aqui dentro é o tempo o responsável pelas regras.

Há apenas três expressões faciais notáveis dentro de um metrô: a séria (fechada, quase zangada), alegre (com um sorriso no canto da boca) e o vegetal (aqueles que parecem estar num transe profundo). Seguem as minhas observações e suposições:

O sério provavelmente está atrasado para alguma coisa relacionada ao trabalho, deve ter acordado cedo e é possível que já dormir tarde. Leva em consideração que é a pessoa mais azarada do mundo e que existe um complô universal contra a sua vida. Encara tudo como se carregasse o peso do mundo nas costas.

O alegre fica com cara de bobo de circo porque, provavelmente, acabou de ver o namorado e sente-se a pessoa mais bela da face da terra. Faz planos de casar, ter cinco filhos e morar em Paris.

O vegetal é o mais feliz do mundo e nem sabe disso. Afinal de contas ele é alheio às situações que se desenvolvem ao seu redor e constrói um universo de imagens dentro de sua cabeça, já que este é normalmente aquele que segue viagem lendo, escrevendo ou ouvindo uma boa música (suponho que seja boa, já que este fecha os olhos e balança a cabeça como se concordasse com o que ouve). Esses, normalmente, sentam-se encostados na parede (no caso de superlotação).

 

Tem quem ache que vagão de metrô é o mesmo que agência matrimonial. Há pessoas que se olham, namoram, tem crise de ciúmes, reconciliação, festa de noivado (tudo isso em 30 minutos, aproximadamente) e separação na estação de desembarque por traição (ou, nesse caso, porque um dos dois olhou para uma pessoa mais bonita).

A cada nova estação, novos passageiros entram e velhos saem. O alívio dá lugar à pressa. Os que entram fazem o mesmo que todos os outros fizeram: busca e marcam seu território como animais costumam fazer na selva. E que ninguém ouse invadir um milímetro que seja do território conquistado, ainda mais na hora do rush.

As crianças, ainda não ensinadas que é falta de educação em nossa cultura observar descaradamente as pessoas, as observam sem medo de olhares repressores. Além de olhar, elas comentam o que observaram e apontam o “ser observado”. Sempre há muito que aprender com elas – as crianças. E elas sempre querem aprender muito conosco. Nos observando.

Na saída nota-se a mesma euforia da entrada. A pressa dita quem sai primeiro.

“Estrangeiro, passageiro de algum trem, que não passa por aqui, que não passa de ilusão.”

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Sobre Colérica

Nasci nos anos 80 - sim, sou maior de idade, mesmo que não pareça! Estudante de jornalismo (típico caso onde se prefere seguir um sonho a buscar dinheiro). Alheia a novelas, filmes cult, comidas extravagantes e palavras difíceis. Sou fascinada pelo Egito, viciada em batata frita, minha cor favorita é o amarelo e meu cabelo me odeia. Eu tinha uma gatinha, mas ela morreu envenenada. O que mais há para se falar de uma garota?Ah, quase ia esquecendo: sou irônica. O que eu espero do mundo? Menos Vogue e mais Dostoiévski, se é que me entende...
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2 respostas para O caso “Metrô”

  1. Gustavo Barud disse:

    Bom, primeiramente, adorei o blog! Fascinante, muito organizado também.

    Em relação ao post, assim, identifiquei-me muito com ele. Acho que a pessoa que nunca entrou não só especificamente no Metrô, mas em outro transporte público, principalmente em Hora do Rush, se identificaria também.
    Eu andei já muito de Metrô/Trem/Onibus lotado, em pleno engarrafamento, voltando pra casa do treino/colegio/curso/trabalho e sei como é isso, mas eu acredito que eu sou um cara “vegetal” devido escutar música e ao mesmo tempo alegre, eu sempre observo todas as pessoas, olho pra elas, rio, mando charminho pra alguma minina supostamente interessante, faço amizades, puxo assuntos. Acho que é a melhor maneira de viver. E também ajuda a passar o tempo mais rápido. E enfim, ja presenciei cenas toscas também. Assim, eu sempre abro mão de lugar pra idosos, gestantes e deficientes. Não custa nada, eles precisam mais do lugar, e não so no assento preferencial, mas em todos os outros.
    Ah, acho que você esqueceu de falar do Metrô em duas épocas: Carnaval e Dia de Jogo de Futebol.
    Bom, nao sei aonde você mora, mas eu sou carioca, e metrô no carnaval é irado, alegria por toda parte. E em dia de jogo, ainda mais se você pegar o metrô com a torcida do seu time? Demais demais =D

    Enfim, novamente, adorei o blog, to te seguindo, e botei o link do seu blog nos meus parceiros, tudo bem? Ah, meu blog é: http://www.dicheterruderer.blogspot.com

    Beijos =)

  2. colerica disse:

    Poxa, obrigada!

    Bem, moro no DF, e por aqui em épocas como o carnaval e copa o metrô, assim como as ruas, é vazio. Extremamente deserto! Rs

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